O-quilombo-do-futuro-Sinopse

O QUILOMBO DO FUTURO

Eis o Elo perdido, que todos encontrem os seus, conectem-se com o cordão do umbigo, com os velhos mentores de suas tribos.

Dos em cor de bronze e ébano esculpidos, esse sou eu.

Estou na estrada, sou o senhor do tempo, rezo por calmaria e sopro pra fazer vento, meus braços vertem-se em asas se necessito pressa, o tempo urge, a hora é essa.

Ouvi o chamado de vossos tambores, dos cantores, o clamor por justiça.

Que corra a notícia que o Afronauta Griot está em Terra, avisa aos poetas, magos, trovadores que tenho a chave da sala secreta que guarda as raízes de nossa esfera, aos pintores, que trago todos os matizes para que realizem a primavera.

Minha missão só se encerra quando o sol subir ao meio dia e, assim, da sombra eliminada a geografia, que nunca mais sobre nós, haja treva.

Desacorrentem a história, recuperem a memória, restituam o esplendor, a glória à Mãe das civilizações, que os livros devolvam os tons, as tantas nuances marrons à terra dos Faraós, façam com o colorido em nós a face dos Orixás, porque o Orum é assim, não há em Aruanda nenhum que não seja retinto, nenhum tão diferente de mim, Minha África é Mãe da magia, berço da metalurgia, da escrita.

Essa idosa senhora trouxe o sol da religiosidade à alma do ser humano, não é por acaso o Sinai erguido em solo africano.

Ali e na vizinhança o mundo emerge da infância e torna-se adulto.

Eu, por ordem de Mãe, com sua chancela, a mesma com que autorizou Mandela, assino o indulto aos que mantiveram a herança dos meus, no breu, em estado oculto.

É chegada a hora. Meu povo canta, ri, reza e chora às vésperas de uma nova aurora e, acampado no negro céu do Cruzeiro do Sul, deuses de África adornam os altares e acendem a lua de Palmares pra iluminar a marcha à santa Liberdade…

Mas, povo de minha raça, não se esqueça, Maafa, quando velas invasoras singram o oceano, em fímbrias do solo africano insuflam conflitos, instauram sangrentos ritos e, algo sem precedente surge no livro da humanidade, a escravidão negra.

É carregado de angústia e dor que retorno a esse instante, mas sou Griot, um tambor, do Criador, ordenança, trago-vos isso, à lembrança para que nunca mais, a tal semelhança, algo nos acometa.

Ó! Povo da pele preta, atento, quando cortejado. Naquele nefasto momento chegaram juntos, impostores do profano e do sagrado envoltos num mesmo véu, um, à sangue, retalhou nossa terra, o outro, nosso céu.

Na escuridão dos tumbeiros, reis, rainhas, guerreiros presos às correntes do cativeiro cruzaram o Atlântico, muitos enlouqueceram, outros tantos mancharam as vestes de Iemanjá com o sangue de suas crianças.

Por esses, no Novo Mundo, meu povo foi ao profundo para religar-se à essência.

Não sabiam o que traziam, os sem valia, nos porões dos negreiros, erraram, esses forasteiros.
Como calar num guerreiro seu canto revolucionário? Não há, em sã consciência, alguém que a outro pertença que resista à violência de seus sonhos libertários.

E nas Américas, um novo cenário.

Fundem-se nossas culturas, como se fundem os matizes de originais tinturas extraídas de diferentes raízes para assim tornar possível uma pintura nova, fecunda e arrojada.

Eis a envergadura da diáspora africana nas terras do Mundo Novo.

É uma nave colossal, fulgurante, colorida, voa com a elegância da negra que dança ao som dos tambores, canta com a voz quase santa que borda a garganta de nossos cantores, faz na instigante cadência do jazz, do samba, um novo grito do Ipiranga, traz, do passado, os pilares para que se reerga Palmares, o porto seguro e, do tesouro ancestral, em urgência espacial, a pedra fundamental do quilombo do futuro.

Pousa no céu da Vai, Vai. No contato imediato, além do terceiro grau, eu, o Griot Afronauta, autorizo, à ribalta meus tambores, ousem meus trovadores, poetas, magos, atores no palco do carnaval.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here