Carnaval, a nossa paixão nacional

Patrimônio e um dos maiores expoentes culturais do Brasil, ele tem algumas peculiaridades desconhecidas do grande público. O carnaval é originário da Roma Antiga e, incorporado pelas tradições do cristianismo, passou a marcar um período de festividades que aconteciam entre o Dia de Reis e a quarta-feira anterior a Quaresma.

Contudo, por mais que já possuísse um caráter festivo, sua ascensão e consolidação acontecem no período da Idade Moderna, especificamente entre os séculos XV e XVIII na Europa efervescente pelo cientificismo em voga no Século das Luzes. O cenário que se insere é o de uma cultura popular essencialmente de festas: de família, casamentos, de santos padroeiros, Páscoa, Ano Novo, Primeiro de Maio, os doze dias de Natal, Solstício de Verão e o Dia de Reis.

Segundo o Historiador britânico Peter Burke, ícone da historiografia cultural , estas festas eram ocasiões especiais em que as pessoas paravam de trabalhar, e comiam, bebiam e consumiam tudo o que tinham. Particularmente no sul da Europa, o Carnaval era a maior festa popular do ano, perfeito para encenação de peças , com inicio em Janeiro ou mesmo em finais de Dezembro, e a animação crescia a medida em que se aproximava a Quaresma.

Para aqueles que participavam significava o “mundo de cabeça para baixo”, ocasião de êxtase e libertação com três temas principais, reais e simbólicos: comida, sexo e violência. A comida era o mais evidente, pois foi a carne que compôs a palavra Carnaval, e seu maciço consumo era representado simbolicamente, também com o significado de “a carnalidade”. O sexo era ainda mais interessante visto ser uma época de intensa atividade a partir de maio e junho e ápice em fevereiro.

Peter Burke considera que o Carnaval não era apenas uma festa de sexo, mas também uma festa de agressão, destruição e profanação onde a agressão verbal era permitida, com os indivíduos mascarados livres para insultar, criticar as autoridades, e, momento propício para denunciar o vizinho ou um amigo como cornudo ou saco de pancada de sua mulher.

A oposição em relação a Quaresma se dá a medida que a Igreja Católica considerava a mesma enquanto período de jejum e abstinência em termos culturais, ir ao teatro por exemplo, deixar de comer carne, ovos e fazer sexo. Logo, tudo aquilo que havia em abundância no Carnaval, deveria faltar na Quaresma, que na sua própria etimologia tem o significado de “tempo de privação”.

Em suma, um era a vida cotidiana, o outro “o mundo de ponta cabeça”, ilustrado em estampas populares no século XVI com figuras que apresentavam inversões: as pessoas ficavam de ponta-cabeça, as cidades ficavam no céu, o sol e a lua na terra, um boi virava açougueiro, o cavalo virava ferrador e ferrava o dono entre outras aberrações.

Como vimos, embora antigo, o Carnaval tem muito do mundo contemporâneo…

Referencia: BURKE, P. 1989 [1978]. Cultura popular na Idade Moderna. São Paulo, Companhia das Letras.

por Jefferson Santana
Membro do Departamento de Comunicação, Diretor de Quadra e Diretor do Departamento Jovem

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here