BAIANAS
As verdadeiras divas da Avenida


            Oh! Divinas e graciosas damas do Grêmio Recreativo e Cultural Escola de Samba Vai-Vai, que com sua simpatia e malemolência, trazem consigo toda a magia e cultura de um povo; povo este que, mesmo com todos os problemas que enfrentam no dia a dia “nunca ficou chorando/ sempre viveu cantando/ fingindo contente”.
            Hoje, muitos têm as baianas, como simples componentes de uma ala qualquer; mas, o que muitos esquecem, é que estas doces senhoras já foram passistas, destaques, chefes de alas e, dizem até que, algumas delas, foram um grande amor de um mestre-sala.
            Muitos não sabem que se não fosse estas divinas e charmosas senhoras, o samba não estaria no patamar que se encontra hoje. Foram elas, que na época em que “falar de samba era crime”, iam além, cultuando o samba em seus terreiros, onde muita gente bamba se fazia presente, e, a simples cantoria e as singelas batucadas, transformavam-se em grandes rodas de samba. 
            Um dos terreiros mais famosos de que se tem notícia, era o terreiro da Tia Ciata, uma das muitas baianas que migraram para o Rio de Janeiro, trazendo suas magias, orixás, comidas e muito “axé”.
            Estas valentes senhoras eram perseguidas por dois motivos: um pelo culto ao candomblé, que na visão das autoridades da época era algo profano, outro, pelo culto ao samba. Numa época em que os sambistas eram considerados um bando de marginais e desordeiros, a perseguição era implacável. Mas como tudo que é proibido e perseguido, na maioria das vezes, vira moda, foi daí que, por este Brasil afora, as Tias Ciatas foram se multiplicando e o samba se agigantando e tomando forma (“O samba tomou seu feitio no morro/ veio para a sociedade/ e não parou só por aí...”).
            Como o samba vem da cultura africana, e todos nós sabemos que esta cultura tem um cunho matriarcal, ou melhor, quem comanda é a mulher, com a libertação dos escravos e a chegadas dos imigrantes, o homem negro ficou sem serviço e, foi a mulher negra, quem passou a sustentar a casa, por restar a ela um pouco de mão-de-obra; mão-de-obra esta, que os imigrantes não tinham a competência para exercer. Quem se atreveria ir para o fogão e preparar os deliciosos quitutes que só elas sabiam fazer? E as suas rezas e suas bençãos contra o mau-olhado? E as suas garrafadas (fortificantes)? Isto, sem falar das amas-de-leite, que era na sua maioria, mães-de-santo e quituteiras.
             São as Baianas que, no rodopiar de suas saias, nos transmitem paz, amor e saúde. São as baianas das sete saias, saias de cor branca, mas tão branca que, se olharmos direto para as saias, nossos olhos não aguentam o clarão (“Baiana das sete saias/ lavando a escada do Bonfim/ quando descer a ladeira/ jogue um beijinho para mim”).
            E não podemos nos esquecer do pano da costa! É nele que a baiana guarda todo seu “axé”; é no pano da costa que ela traz toda a sua magia e poder; é com ele que ela nos benze e, com este mesmo pano da costa, que ela nos encobre para nos proteger dos males espirituais. É este pano da costa que, na avenida, traz a devida proteção para o bom andamento de nosso desfile!
            No auge dos seus 60, 70 ou até mesmo 80 anos, nossas baianas viram meninas, quanto estão desfilando e defendendo as cores do nosso Vai-Vai. Quem não se emociona ao ver aqueles rostos com as marcas do tempo, esbanjando o sorriso singelo e cativante de sempre?
            Como é gostoso ouvir, antes do desfile começar, o puxador do samba gritar bem alto “AXÉ, MINHAS BAIANAS, A SUA BENÇÃO!!!” E que benção! Parece que tudo fica mais fácil, as fantasias ficam mais leves e, uma luz divina, nos envolve e nos carrega durante todo o desfile! São, com certeza, os anjos que vêm à frente da alas das baianas, tocando suas trombetas, anunciando a passagem das grandes damas e, como num passe de mágica, já estamos na dispersão! E, aquelas divinas senhoras, continuam com aquele olhar meigo, aquele sorriso cativante de sempre, prontas para começar tudo de novo!


A ALA


            No Grêmio Recreativo e Cultural Escola de Samba Vai-Vai, a ala das baianas teve início numa bela quarta-feira do mês de outubro de 1971. Foi em virtude da transformação do cordão para escola de samba. Isto, porque, os cordões, tinham seus desfiles pautados em outros elementos, como, por exemplo, não ser obrigados a ter ala de baianas. Mas, felizmente, passamos a ser escola de samba e pudemos desfrutar das bençãos e da proteção destas grandes divas.
            Nossa ala das baianas começou com força total. A sua formação foi calcada em cima das grandes damas do cordão, dentre elas, destacamos a saudosa, Dona Ana Penteado, que foi uma das fundadoras do cordão, e por muito tempo, teve a primazia de ser a “Baiana Símbolo da Escola”. Assim como: Dona Rosa, Dona Nenê, Dona Cida, Dona Mafalda, Tia Marcinha e Dona Terci.
            Após quatro décadas de sua fundação, nossa ala das baianas continua mais forte do que nunca. Sob a direção de D. Joana Aparecida Barros, suas atuais componentes cumprem com maestria e dignidade as funções que lhes foram conferidas e que herdaram de suas antecessoras.
            Nossas baianas continuam nos cobrindo com seu manto sagrado (pano da costa), continuam espalhando pelo ar seu “axé” e iluminando os caminhos de nossa diretoria e componentes, dando-nos com isto, a proteção necessária, para que trilhemos os caminhos da vitória, já peculiar à nossa querida Escola de Samba Vai Vai.
            Axé minhas baianas! Axé minhas doces e singelas senhoras! Axé Dona Cleide, Célia, Ducelena, Cleonice, Vanessa, Margarida, Elza, Cida, Leonice e Dona Jandira. Que Nossa Senhora da Achiropita lhes cubra com seu manto e ilumine seus caminhos!  Que seus orixás de cabeça estejam sempre ao lado de vocês, dando-lhes a proteção necessária para que cumpram, com a dignidade de sempre, as atribuições que lhe foram conferidas.


Por: Fernando Penteado – Diretor Geral de Harmonia

 

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